Entre avanços históricos, desafios persistentes e a dependência de milhões de brasileiros, o Sistema Único de Saúde segue como uma das mais importantes expressões de cidadania do país.
Ana Luíza Campos
Vittor Oliveira
Nas ruas, o Sistema Único de Saúde (SUS) não desperta respostas neutras. Basta a sigla de três letras para que surjam relatos de espera, alívio, gratidão ou revolta. Para alguns, o SUS representa a garantia de atendimento em momentos de vulnerabilidade e, para outros, é sinônimo de filas intermináveis e da sensação de abandono. Em um país onde cerca de 76% da população depende exclusivamente da rede pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma das mais importantes políticas sociais do Brasil.
Alvo frequente de críticas, o sistema reúne avanços históricos e desafios persistentes, refletindo as desigualdades e as possibilidades da sociedade brasileira.
Em Viçosa (MG), as experiências variam. Enquanto alguns cidadãos relatam atendimentos eficientes e acesso gratuito a serviços como vacinação, outros apontam a demora para consultas e procedimentos especializados. A percepção individual, embora legítima, revela apenas parte de uma discussão muito mais ampla e complexa.
Contexto histórico

Criado pela Constituição Federal de 1988 e responsável por atender milhões de brasileiros diariamente, o SUS é, ao mesmo tempo, alvo constante de críticas internas e referência internacional em saúde pública. Mas essa dualidade, evidentemente, não é uma mera coincidência. Atuando como um sistema de saúde universal em um país profundamente desigual, ele concentra tanto as virtudes quanto as fragilidades do Estado brasileiro. Entender o SUS, portanto, é também uma forma de entender o próprio Brasil.
Na redemocratização brasileira, o Sistema Único de Saúde nasceu de uma das transformações sociais mais ambiciosas da história recente do Brasil. O objetivo era tornar a saúde um direito de todos, e não um privilégio de quem podia pagar ou de quem estava formalmente inserido no mercado de trabalho.
Hoje, essa premissa parece simples, mas, até esse período, o acesso à assistência médica pública era restrito, em grande parte, aos trabalhadores vinculados à Previdência Social.
Antes da criação do SUS, estima-se que apenas cerca de 30 milhões de pessoas tinham acesso regular à rede pública de saúde. O restante da população dependia de instituições filantrópicas, santas casas ou, muitas vezes, simplesmente ficava sem atendimento. Foi nesse contexto que ganhou força o movimento da Reforma Sanitária, que defendia a saúde como direito universal.
A proposta foi incorporada na Constituição, que consagrou, no artigo 196, um princípio até então revolucionário: “saúde é direito de todos e dever do Estado”. Nascia, assim, o Sistema Único de Saúde que sempre foi mais do que uma política pública, mas um projeto de país.
Complexidade e desafios

As falhas frequentemente apontadas, como filas, demora e sobrecarga, são, muitas vezes, atribuídas apenas à gestão. No entanto, essa leitura simplifica uma realidade mais complexa.
“Eu posso dizer que o maior desafio do nosso sistema é o subfinanciamento”, afirma Alexsandra.
Segundo ela, a limitação de recursos impacta diretamente na contratação de profissionais, na disponibilidade de insumos e na capacidade de atendimento. Criado para democratizar o acesso à saúde, o SUS opera em uma tensão constante entre o ideal de universalidade e as limitações de um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais.
Brasil e o mundo
Quando colocado em perspectiva internacional, o SUS revela sua singularidade. Os Estados Unidos, por exemplo, evidenciam que o alto investimento em saúde não garante acesso, já que não possuem um sistema universal. O Brasil se destaca como um dos poucos países de grande escala a manter um sistema público, gratuito e universal
Relevância
Durante a pandemia de COVID-19, essa característica se tornou ainda mais evidente. O SUS foi fundamental na vacinação em massa, no atendimento hospitalar e na manutenção de cuidados essenciais, mesmo sob forte pressão. Quando questionada sobre o que perderíamos como sociedade se o país não tivesse o SUS, Alexsandra é direta: “perderíamos o acesso aos cuidados em saúde e todas as consequências que teria diante disso”. Portanto, mais do que uma política pública, o SUS materializa o princípio constitucional de que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Sua existência não elimina desigualdades, nem resolve integralmente suas próprias limitações, mas estabelece um parâmetro civilizatório mínimo. Em um país marcado por sérias disparidades sociais, sua ausência não representaria apenas a perda de um sistema, significaria a ruptura de uma das principais garantias de cidadania no Brasil.
