Conhecidas como Pancs, as Plantas Alimentícias Não Convencionais são facilmente encontradas em ambientes urbanos e possuem um alto teor nutricional, sendo alternativas mais saudáveis e sustentáveis às plantas convencionais.
Gabriel Victor
Ronaldo Scanavini Neto
Nas calçadas das grandes e pequenas cidades, é possível encontrar uma quantidade significativa de plantas, normalmente confundidas com ervas daninhas. Boa parte delas, além de competirem espaço com o piso urbano, danificando-o com o decorrer do tempo, podem ser verdadeiras parceiras da saúde humana. São as Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou Panc, que já constam na alimentação dos povos originários há milhares de anos, antes mesmo da constituição do Brasil Colônia, e da própria criação do termo, em 2008.
Foi o biólogo, professor e pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), Valdely Kinupp, quem iniciou os estudos sobre esse grupo de plantas em 2004. Em 2008, ele cunhou o termo Plantas Alimentícias Não Convencionais para designá-las. Após uma década de pesquisas, Kinupp e o engenheiro agrônomo Harri Lorenzi catalogaram cerca de dez mil espécies presentes no território brasileiro. O resultado desse trabalho foi publicado, em 2014, no livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil”, referência nacional sobre o tema.
“Panc é um grupo muito amplo, congregando uma variedade de espécies e tipos de plantas, muito além das que nascem no ambiente urbano, como a Ora-pro-Nóbis e a Taioba. Englobam plantas nativas, dos diferentes biomas do Brasil e do mundo, como Cipós e Vitória-Régia”, ressalta Kinupp em entrevista ao OutrOlhar.
Conforme o próprio termo já diz, esta categoria abrange toda planta comestível geralmente não integrada ao cardápio alimentar diário da população de uma determinada região, cultura ou país. Na maioria dos casos, são produtos naturais que não fazem parte de um sistema de produção em larga escala.

Valdely Kinupp argumenta que a lógica de produção voltada à monocultura, prática de cultivo de apenas uma espécie de planta para fins comerciais, é uma das grandes responsáveis pelo descarte das Panc, que são altas em teor nutricional e alternativa mais sustentável e saudável para consumo cotidiano.
Apesar disso, segundo o pesquisador, mesmo deixado de lado pelo mercado agrícola, o conhecimento sobre estas espécies foi repassado de geração a geração de forma oral, antes da classificação e definição oficial do termo. “Há diversas famílias com tradições culinárias que possuem as Panc como ingredientes ou, até mesmo, como ervas medicinais caseiras para o tratamento de diferentes doenças”, ressalta.
Produtos regionais
No Brasil, as milhares espécies nativas não convencionais aparecem como alternativas viáveis, mas restritas ao comércio e ao cardápio de suas respectivas regiões. De acordo com a professora de Agronomia e pesquisadora da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Maíra Christina Marques Fonseca, mesmo resistentes e adaptáveis aos ambientes urbanos, a grande maioria depende de condições climáticas e de solo específicas, além de questões culturais de consumo, como é o caso da própria Vitória-Régia.

“Não existe uma lista fechada de Panc em todo o Brasil, mas sim uma regionalização. Se uma planta não é muito consumida ou produzida numa determinada região, como a Taioba no nordeste brasileiro, por exemplo, ela não entraria no seu cardápio específico”, ressalta.
No entanto, segundo os pesquisadores, apesar dos desafios relacionados à comercialização em mercados locais e à necessidade de condições climáticas adequadas para o cultivo, as Pancs apresentam elevado potencial econômico para a agricultura regional. Eles ressaltam que a ampliação da divulgação e do consumo dessas plantas poderiam contribuir para a diversificação da alimentação, promoveriam benefícios à saúde da população e valorizariam práticas culturais e gastronômicas tradicionais, fortalecendo, também, a produção agrícola local.

