Carol Paiva
Mayra Barbosa
O Brasil ocupa a segunda posição no ranking global de países cujas populações passam mais tempo diante de telas, com média diária de nove horas e 13 minutos por dia, segundo pesquisa realizada pela Cisco em parceria com a OCDE, em 2024. Esse uso intensivo de celulares e outros dispositivos móveis traz consequências para a saúde mental e para o rendimento acadêmico, especialmente da juventude, conforme pesquisadores entrevistados pelo OutrOlhar.
Os impactos dependem diretamente da finalidade do uso e, por isso, é essencial diferenciar o tipo de uso no tempo de tela. Segundo o doutor em psicologia e professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Thiago Mansur, os impactos negativos estão mais associados ao consumo recreativo. “Pesquisas feitas com estudantes de graduação e do ensino médio mostram que quanto mais tempo se usa telas para entretenimento, menores as notas e o rendimento acadêmico. Quando se usa para fins de estudo essa associação não existe”, afirma Mansur.
Conforme explica, a dificuldade de controlar o tempo de exposição com o lazer pode indicar quadros de nomofobia, caracterizados pelo medo irracional de se desconectar, exigindo acompanhamento profissional. Nessas situações, os efeitos incluem insônia, agravamento de ansiedade e depressão, além de prejuízos cognitivos relacionados à sobrecarga de informações e ao uso excessivo da memória de trabalho do cérebro.
No entanto, o uso de telas começou a ser comparado a uma espécie de dopamina, um tipo de neurotransmissor que atua no cérebro como o mensageiro do bem-estar, ideia criticada pelo doutor e psicólogo da Divisão Psicossocial da UFV, Felipe Stefan. Segundo explica, a dopamina está em muitas atividades que desenvolvemos e não apenas nas que nos trazem prazer, mas também no nosso controle motor e na nossa motivação. Essa explicação simplista chega como uma forma de reforçar a satisfação pelo uso das redes sociais digitais, como uma dopamina barata, sem considerar os problemas desse uso excessivo como a nomofobia.

Além disso, a relação entre o uso de telas por crianças no ambiente escolar e as desigualdades sociais chamam a atenção para uma análise mais ampla do problema, conforme o doutor em Comunicação e professor da UFV, Henrique Mazetti. Segundo ele, medidas como a proibição de celulares nas escolas não atacam as causas da falta de atenção em sala de aula.
“É preciso compreender o papel das tecnologias para além de soluções simplistas, mas pelo pelo olhar social e, no Brasil, ele está sempre atravessado por essas lógicas de desigualdade”, ressalta.
Portanto, analisar o tempo diante dos dispositivos exige senso crítico sobre finalidade, contexto e desigualdades, evitando explicações simplistas e soluções imediatistas.
