O Brasil se une em torno do futebol

Esporte e lazer

Pesquisa mostra que 7 a cada 10 brasileiros assistem a pelo menos uma partida de futebol por semana.

Brenda Nerak
Lara Mendes

Oito em cada dez brasileiros possuem um time do coração, segundo levantamento do instituto Nexus, realizado em agosto de 2025, que destaca Flamengo e Corinthians. O futebol é uma das alternativas para as pessoas se unirem, seja para prestigiar a seleção brasileira, torcer pelos times de coração ou até mesmo para fazer amigos, como diz o treinador de categorias de base da cidade de Viçosa (MG), Sérgio Erink Pio (25).

Sérgio Henrique afirma que “A Copa do Mundo une um povo em um objetivo”, e percebe a paixão da juventude pelo esporte. Isso fica evidente no Brasil visto que os mais interessados em acompanhar a Copa do Mundo de 2026 são os jovens de 16 a 24 anos de idade, conforme pesquisa realizada pelo DataFolha, em abril de 2026.

Sérgio Enrik ao lado dos seus atletas do projeto social Palestra Estrela que atende mais de 150 jovens na cidade de Viçosa-MG

Contudo, essa empolgação não está presente em todas as faixas etárias. A mesma pesquisa do Datafolha revela um desinteresse de 59% entre a faixa etária de 45 a 59 anos. O ubaense Maurício Pujoni (54) relembra que assistir às partidas do Brasil em copas anteriores se aproximava de um “ritual familiar”, que girava em torno do amor pelo país. Hoje em dia com os filhos Gabriel, Lucas e Mauricio Junior, ele se reúne para assistir aos jogos da seleção, mas não com a mesma paixão de tempos anteriores. Isso se explica, segundo o doutor em História do Futebol pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Agnaldo Kupper, devido a questões políticas e ao processo de mercantilização do futebol e seu afastamento da identidade brasileira.

O viçosense Rônei Silva (44) também sente que se afastou da seleção com o passar dos anos. Em 2002, quando o Brasil foi pentacampeão da Copa do Mundo, ele tinha 20 anos de idade e acompanhou o caminho até o título em bares na Avenida Santa Rita, em Viçosa (MG). Com o tempo, Rônei percebeu que o seu interesse em relação à seleção foi diminuindo. No entanto, o futebol, de maneira geral, continua atraindo os brasileiros, em especial pela interação com as redes sociais que também influencia nas escolhas de seus times. Kupler ressalta que a maneira que os mais jovens se relacionam com o futebol hoje é diferente das gerações anteriores.

Para a belo-horizontina e torcedora do Atlético Mineiro, Maria Luíza (26), o hábito de brincar com a bola veio da infância e o que era brincadeira se transformou em paixão pela prática do futsal. Outro que traz o futebol desde a infância é o eletricista e árbitro federado, Rônei Silva. Na década de 1980, Rônei e os irmãos jogavam futebol na Comunidade Córrego dos Nobres, zona rural do município de Viçosa (MG), descalços pelos campos de terra batida próximos à casa da família.


Rônei Silva, eletricista e árbitro federado, e Maria Luíza, mestranda em Educação Física na UFV, dois atleticanos que praticam futebol desde a infância e continuam na fase adulta da vida.

REPRESENTATIVIDADE PARA DIFERENTES GERAÇÕES

Além do lazer, o futebol possui a capacidade de pautar questões sociais e raciais. Desde as primeiras participações em Copa do Mundo, a seleção brasileira foi protagonizada por jogadores negros, como Leonidas da Silva e Pelé. Para Agnaldo Kupler, o futebol sempre esteve relacionado com o momento histórico e político do Brasil, influenciando a relação da população com questões sociopolíticas. 

No presente, jogadores como Vinícius Júnior, revelado nas categorias de base do Flamengo e vendido em 2017 para o time espanhol do Real Madrid, chamam a atenção dos jovens. Vini Jr, como é conhecido, sofreu vários casos de racismo em partidas na liga de futebol da Espanha e atualmente é um dos principais jogadores globais que debate publicamente causas raciais.

Maria Luiza entende que dentro de campo, com a camisa canária, Vini Jr é símbolo de talento e identidade negra e inspira diversas pessoas a buscarem seu protagonismo.

Assim como ele, Richarlison de Andrade, atual jogador do time inglês Tottenham, veio a público nas mídias sociais falar sobre pautas pouco faladas, debatendo sobre a depressão vivida por ele. Em um mundo globalizado, essas atitudes aproximam a população brasileira dos jogadores, que não atuam em solo brasileiro, e passam a ser vistos como pessoas com problemas e questões cotidianas.

O futebol passou por transformações que mudaram a maneira como diferentes gerações se relacionam com o esporte. Enquanto novas gerações buscam no futebol o papel da representatividade e das questões sociais, outras gerações se percebem distantes do futebol devido a uma nova lógica capitalista adotada pelo esporte, que se torna cada vez mais um produto e menos uma identidade nacional. Essa dicotomia de opiniões acerca da prática esportiva pode ser um reflexo político e social do Brasil, assim como Kupler ressaltou.

O futebol tenta se manter em meio às mudanças de uma sociedade cada vez mais polarizada e digital. Contudo, mesmo diante das transformações e das mazelas sociais, o futebol continua a correr nas veias do brasileiro, sendo parte essencial de sua identidade cultural.

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