Reconhecida internacionalmente por sua identidade própria, a modalidade se consolidou como uma das mais praticadas e continua em expansão no país.
Igor Bispo Pedro Victoretti
O Jiu-Jitsu é uma arte marcial que tem suas raízes na Ásia, mas ao desembarcar no Brasil, no século XX, foi adquirindo características únicas. Com a colaboração da família Gracie, referência da modalidade no país, o esporte ganhou o sobrenome de Brasileiro. Sobre a brasilidade adquirida pela arte marcial, o professor Arlindo Paiva, da academia Paiva Team, afirma que, internacionalmente, a arte marcial adquiriu identidade própria.
“Se você for lutar lá no Japão, vão falar que você é lutador de Brazilian Jiu-Jitsu, de tanta adaptação que foi feita, e por ter ficado tão grande como ficou.”
Arlindo Paiva
ROTINA DE CAMPEÃO
Só em Minas Gerais, são cerca de dez mil atletas filiados à Federação Mineira de Jiu-Jitsu. Entre eles, se destaca Bruno Cruz, lutador viçosense tricampeão do Mundial pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo (CBJJE), na categoria Pesadíssimo, que não possui limite de peso. Cruz começou sua trajetória na academia WR, por meio de uma bolsa-atleta oferecida pelos professores. Mudou-se para São Paulo em 2019 e passou dois anos se dedicando totalmente ao esporte, conquistando os seus dois primeiros mundiais em 2020 e 2021.
Depois dessas vitórias, porém, Bruno Cruz começou a dividir a rotina de atleta com outros trabalhos para complementar a renda, até perceber que não seria possível essa conciliação, se afastando da modalidade por quatro anos. A dificuldade financeira também foi uma questão durante a trajetória do professor Arlindo e de alguns de seus alunos no Jiu-Jitsu. “Em geral, esporte no Brasil, se for pensar em incentivo político, empresário, é muito difícil. Porque não dá pra viver só de amor ao esporte, né? Você precisa botar comida na mesa”, ressaltou.
SUPERAÇÃO
Mas se existe algo que conecta o Jiu-Jitsu ao brasileiro, é a capacidade de se superar diante das dificuldades. Depois de quatro anos distante do esporte, Bruno Cruz voltou para continuar a carreira. Sem alarde ou divulgação, treinou do final de setembro até 28 de novembro de 2025, dia do terceiro mundial. “Não sei como consegui, porque eu dormia umas três horas por noite. Trabalhei e treinei todos os dias”, conta. Mas, segundo o atleta, valeu! Ao final da preparação, veio o título, a conquista mais importante e desafiadora da sua carreira até então.
Bruno Cruz, vestido de preto ao centro, sagrou-se tri campeão na categoria Pesadíssimo.
BENEFÍCIOS
Questionado sobre o que o Jiu-Jitsu significa para ele, Bruno Cruz diz que a arte marcial “salvou sua vida”, pois o fez viver realidades e conquistas que não seriam possíveis sem o esporte. A relação de gratidão com o esporte também faz parte da história do professor da academia WR, João Gabriel que, assim como Cruz, entrou na academia como aluno por meio de uma bolsa. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) grau 1, Gabriel afirma que a convivência na academia contribuiu para melhorar sua comunicação e relação com outras pessoas.
“Essa convivência na academia me ajudou muito a me comunicar melhor com as pessoas, aprender a olhar no olho da pessoa, aceitar, conversar com a pessoa… Eu tinha muita dificuldade com o diálogo. Então o Jiu-Jitsu, a arte marcial me ajudou muito nisso. Evoluí como pessoa.”
João Gabriel
João Gabriel, professor da academia WR, destaca os impactos do Jiu-Jitsu em sua trajetória pessoal e profissional.
Durante a aula na academia WR, os alunos praticam técnicas da modalidade sob orientação do professor Rodrigo Surfoque. Foto: Pedro Victoretti
NOVA GERAÇÃO
O presidente da Federação Mineira, Thalles Guimarães, explica que os benefícios da prática do esporte têm sido um dos motivos que mais influenciam o crescimento do Jiu-Jitsu no Brasil, em especial entre as crianças. Segundo ele, o Jiu Jitsu Kids é o que mais tem crescido, até por indicação médica em razão dos benefícios que vão além da prática do esporte. “Ele contribui para melhorar o comportamento, para mostrar a necessidade do respeito e a compreensão do ganhar e perder. Isso é muito importante, principalmente nos dias de hoje quando as crianças consomem muita tela”, comentou.
UM ESPORTE BRASILEIRO
Então, chamar o Jiu-Jitsu de brasileiro é mais do que entender a contribuição verde amarela no desenvolvimento da prática, é também reconhecer que uma arte marcial daqui consegue ter um impacto imenso na vida de seus praticantes.
Alunas praticam técnicas de Jiu-Jitsu durante treino na academia WR, em Viçosa (MG). Foto: Pedro Victoretti