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Arte e Cultura

Entre golpes, músicas e tradições, a capoeira se mantém viva como expressão cultural do Brasil.

Mell Muniz e Sofia Souto

São mais de cinco mil capoeiristas no Brasil, organizados em cerca de 1500 grupos e entidades, segundo o portal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Originalmente brasileira, a capoeira surgiu durante o período colonial como uma forma de sobrevivência à cultura africana. Segundo o Contramestre de Capoeira, da Escola de Capoeira Angola da Tribo do Morro, em Viçosa (MG), Daniel Angoleiro ela “representa a força e a resistência de um povo, que foi escravizado e vivia de forma injusta”. 

A capoeira foi criada pelos escravizados no Brasil como forma de se proteger das violências que eles sofriam, os movimentos corporais bem treinados era um dos únicos jeitos de lutarem contra “capitães de mato”, pessoas que caçavam os escravizados que fugiam das casas de engenho. A luta se disfarçou como dança e as histórias se disfarçaram como música. Esse disfarce foi necessário devido à proibição da prática tanto durante quanto após a escravatura.

A estratégia de camuflagem funcionou de forma tão excelente que até os dias de hoje algumas pessoas se perguntam se “é dança ou é luta?” Assim, a capoeira pode ser vista, conforme destaca Daniel Angoleiro, como “um grito de liberdade naquele tempo e ainda segue, ainda até hoje, com essa função de libertar o povo, porque hoje ela trabalha em vários campos, na área da psicologia, na área da saúde de forma geral, tanto física como psicológica”.

O Mestre Japão reflete para a Associação Brasileira de Capoeiristas (ABCAP) sobre como a organização em roda é um acontecimento natural que está em toda a natureza, desde que haja um centro de atenção. Assim como “os planetas que circulam o sol, os animais que abatem uma presa e os humanos que ficam ao redor de uma fogueira, a roda de acontecimentos, luta e eventos da Capoeira se formou.” diz o Mestre Japão da ABCAP. 

Ao redor, mestres, contramestres, alunos e musicistas vibram para manifestação cultural que é a roda de capoeira, como um espaço de respeito, a micro comunidade que se desenvolve nesse ambiente de troca de conhecimentos. Gilberto Andrade, conhecido como Ancestral, pratica capoeira há 30 anos e reconhece o peso das tradições, “sempre gostei de valorizar o antigo, de estudar a capoeira antiga,porque o novo já está aí. Infelizmente o antigo está ficando esquecido”.

O esporte que possui o jeitinho brasileiro ritmado para condução, com suas características ancestrais, troca de aprendizados e valorização da sabedoria cria um ambiente acolhedor, que preserva tradições enquanto integra novas gerações. É possível perceber a interação de pessoas de diversas idades, fortalecendo o senso de respeito, comunidade e coletividade entre elas. Alguns capoeiristas da Escola de Capoeira Senzala Viçosa (MG) nos contam porque gostam de participar da roda de capoeira.

Mesmo com a abolição da escravatura e o reconhecimento da capoeira como luta e esporte, a música ainda é um dos elementos mais essenciais, toda luta deve acontecer ao som de uma música típica da capoeira, e os movimentos devem ser feitos nas batidas da canção. Os cantos são acompanhados de instrumentos de origem afro-brasileira, como o berimbau, o atabaque, o pandeiro e o reco-reco.

As pessoas que praticam capoeira, também reconhecem a musicalidade como uma das partes mais legais do esporte. Durante as rodas na Capoeira Senzala em Viçosa – Minas Gerais, o Contramestre Tommy Wanick destaca a importância dos integrantes se envolverem com os cantos e aprenderem a tocar diversos instrumentos, se arriscando em batidas diferentes.

Além da música e da parte física do esporte, a capoeira traz uma necessidade de interação e cuidado com o outro, tudo é feito coletivamente e exige uma conexão entre as pessoas. Ancestral, menciona ainda que a coletividade como um valor muito integral dessa prática e a tentativa que eles têm de agregar valor não só um para os outros mais para a comunidade em geral.

A capoeira é uma parte importante da cultura do Brasil, e uma forma extremamente importante de integrar expressões artísticas e históricas negras na sociedade, que conecta a população com suas raízes afro-brasileiras. A capoeira é para todos que quiserem ser parte dela.

“O capoeirista tem religião, a capoeira não, a capoeira é livre”

Gilberto Andrade, Ancestral

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