Atividades artísticas como desenho e pintura são também utilizadas para auxiliar no cuidado com a saúde mental, como explica o arteterapeuta e estudante de Psicologia, Tim Gama. A prática busca trabalhar emoções, comportamentos e experiências por meio da expressão simbólica. Segundo explica, o foco está no processo e no que ele revela sobre o indivíduo. Conforme Gama, a arteterapia está em crescimento no Brasil, mas ainda é pouco conhecida pela população. Em cidades como Viçosa (MG), o interesse existe, mas ainda é acompanhado de dúvidas e resistência, especialmente por falta de informação sobre como funciona o atendimento e quais são seus benefícios.
O arteterapeuta mantém um ateliê em Viçosa, voltado, principalmente, para o público idoso. Gama utiliza a arte como ferramenta terapêutica desde 2018 e passou a associá-a a seus conhecimentos da Psicologia. Segundo ele, o trabalho com pessoas mais velhas envolve questões como solidão, ansiedade e adaptação às mudanças do envelhecimento, e a arteterapia pode contribuir para o autoconhecimento e o bem-estar.
Embora o foco do ateliê esteja nos idosos, o interesse de jovens por atividades artísticas também tem aumentado. Nesse caso, a busca nem sempre passa pela arteterapia, mas por práticas manuais realizadas de forma independente, muitas vezes associadas ao lazer e ao alívio do estresse. Estudantes da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e da Escola Estadual Effie Rolfs, da cidade de Viçosa (MG), contam suas experiências com as artes manuais e seus impactos.
‘Não é terapia, mas é terapêutico’
Iasmin Ciro (17), estudante da Effie Rolfs, encontrou na arte uma forma de lidar com o cotidiano ainda na pré-adolescência. O envolvimento mais intenso começou durante a pandemia, quando o desenho passou a funcionar como expressão e também como uma forma de lidar com o isolamento. “Foi uma forma de externalizar o que eu estava sentindo”, conta.
Com o tempo, o interesse se aprofundou: Iasmin Ciro passou a estudar por conta própria e, depois, ingressou em cursos como o do Centro Experimental de Artes da Prefeitura, onde teve contato com outras técnicas. Hoje, ainda se considera em fase de experimentação, usando o desenho como forma de expressão e alívio. Em momentos de estresse, recorrer à prática tornou-se um hábito. “Não é terapia, mas é terapêutico”, resume.

Apreço cultural
Isabely Siqueira (19), cursa Secretariado Trilíngue na UFV, conta que, desde criança, desenvolveu seu lado artístico. Para ela, a arte também se transformou em uma alternativa de renda. Ela produz telas, chaveiros e decorações de biscuit, acessórios de miçangas e trabalha com pinturas faciais em festas infantis. Segundo ela, o apreço cultural é o diferencial dessas produções brasileiras.

Cooperação
Alana Cardoso (20), estudante de Letras na Universidade Federal de Viçosa, é neta de uma crocheteira e sentiu que deveria continuar o legado. Apesar de começar no crochê aos dez anos de idade, foi somente aos 19 que passou a aprimorar sua arte. Para Alana Cardoso, o crochê é um grande ato de contribuição, pois acredita que a verdadeira arte é a cooperação. Sempre que começa uma nova peça ou está em busca de alguma inspiração, ela recorre à sua avó, atribuindo para sua arte traços bem conhecidos na cultura brasileira, como o afeto e o carinho, transformando seu vínculo familiar em manifestação artística.

Tropicalismo e conforto brasileiro
A estudante de Biologia da UFV, Rayane Alves (22) também foi introduzida ao mundo do artesanato ainda criança. Por meio de um programa do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de Governador Valadares (MG), que promove artesanato para crianças, Rayane Alves pôde ter contato direto com essas formações. Atualmente, usa de sua arte como renda extra, ao produzir pulseiras, colares, brincos e peças de crochê, vendidas em sua loja no Instagram.
A graduanda acredita que o artesanato brasileiro se destaca pelo caráter tropical: quente, colorido, energético e único. Ela cita a preferência por linhas de algodão mais finas, devido ao calor, e o uso de cores vibrantes, além de peças mais frescas que revelam um traço marcante do brasileiro: o apreço pelo conforto.

A pluralidade das artes manuais
Do Norte ao Sul, as artes manuais brasileiras são únicas e representam sua diversidade cultural, afirmando um fato imprescindível para cada um de seus artistas, o de pertencimento. Seja através da cerâmica do Vale do Jequitinhonha, das redes de dormir (do Norte e do Nordeste) ou da cestaria indígena, o artesanato brasileiro se valida por meio da resistência de seus povos. É através da necessidade de transformar artefatos de utilidade, culturais e regionais em arte que o povo brasileiro afirma sua pluralidade.
