Agroflorestas são alternativa para plantio sustentável e renda no Brasil

Meio Ambiente

O formato de cultivo cresceu 66,43% entre 2006 e 2017 segundo dados do IBGE, mas ainda é um desafio no país.

Por Fátima Tatiana e Wallace Dias

4–5 minutos


O Brasil ganhou mais de 5,6 milhões de hectares de sistemas agroflorestais (SAFs) entre 2006 e 2017, segundo dados do Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Braileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número passou de 8,3 milhões de hectares para mais de 13,8 milhões, crescimento que reflete a busca por práticas de plantio e produção sustentável. As agroflorestas são uma forma de manejar o solo que imita os mecanismos das florestas nativas, onde árvores e arbustos são combinados à produção agrícola, ajudando a diversificar as plantações, gerando renda, protegendo bens naturais e envolvendo comunidades locais, como define a cartilha do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) sobre SAFs.

Esses sistemas se dividem em dois tipos: de proteção e de produção. Os de proteção servem principalmente para a conservação de mananciais, que são os cursos de água, muito importantes para a conservação da vida. E os de produção são voltados para produzir alimentos e fibras, tendo como principais culturas café, cacau, açaí, mogno, banana, milho, abóbora, cana de açúcar, entre outros, além de contar, em alguns casos, com a presença de animais como bovinos, aves e ovinos. Um dos pontos principais desse tipo de cultivo é entender todo o contexto da região em que se quer implementar.

A banana tem forte presença nos quintais agroflorestais e são maioria na área de plantio do CTA. Foto: Fátima Tatiana

Segundo o engenheiro florestal formado pela UFV, Matheus Ferreira, as agroflorestas têm grande potencial ambiental e econômico, mas é preciso ainda investimentos importantes e o primordial, que são técnicos e assessorias especializadas para auxiliar os produtores a trilhar o melhor caminho.

“A natureza daqui já é florestal, a gente tem facilidade de produzir bens florestais, madeiras, frutas nativas, frutas diversas como castanhas, polpas de frutas, açaí […] Então, temos muito potencial e muito pouco desse potencial usado. E são muitos fatores que levam isso a acontecer, desde a falta de incentivo, passando por questões políticas e de assessoria técnica”, destaca.

No campo dos incentivos, até existem iniciativas como o Programa Nacional de Florestas Produtivas, que recebeu destaque internacional na Organização das Nações Unidas (ONU), além de projetos desenvolvidos em parceria entre instituições públicas e privadas, como o Floresta Viva, realizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Apesar dos avanços, especialistas apontam que ainda é necessário ampliar o alcance desses investimentos e fortalecer a divulgação dos benefícios proporcionados pelos sistemas agroflorestais.

Um exemplo que passou por implementação e hoje colhe seus frutos é o do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM). O manejo agroflorestal é feito há 40 anos numa área de quase um hectare, antes destinada à pastagem, sem árvores. Atualmente a área possui diversas espécies como cajás-mirim, cacau, limão, café, juçaras, uma palmeira que está em risco de extinção, banana, entre outros. O lugar se tornou não apenas uma extensão produtiva da natureza, mas um ambiente educativo onde estudantes e população podem ter acesso a informação e contato direto com esse sistema de plantio sustentável, conforme conta o engenheiro florestal responsável pelo manejo no CTA, Davi de Senna.

Por ser uma área também educativa, a agrofloresta conta com placas informativas para os frequentadores. Foto: Fátima Tatiana

Ele complementa que o manejo é uma das partes mais importantes de todo o processo e o tempo deve ser seguido para que tudo dê certo. As árvores grandes que precisam ser podadas, seja por serem invasoras ou por estarem mais velhas, têm suas madeiras utilizadas como divisórias nas trilhas e separação das culturas ou ainda como adubo para a terra. No fim, nada se perde. Os frutos e folhas que caem no chão também contribuem para fertilizar a terra e deixam um ambiente propício para o desenvolvimento natural das espécies e manutenção da vida de pequenos insetos que são essenciais.

Atualmente há um projeto em andamento, aprovado no edital da Terra Mesa 2025: o Agroflorestas Que Alimentam, sendo executado pelo CTA em conjunto com Instituto Socioambiental de Viçosa. Seu objetivo de ampliar a capacidade produtiva de propriedades rurais, distribuídas em 11 municípios da Zona da Mata. No total, serão beneficiadas 200 famílias visando à implementação de SAFs e ao aprimoramento e manejo dessas áreas. Além disso, serão realizadas ações voltadas para a conservação de solo e água, inspiradas na tecnologia social de plantio de água, com técnicas para aumentar a captação e a infiltração da água da chuva no solo. Este projeto ainda prevê o apoio em diferentes tipos de sistemas agroflorestais e ações de saneamento rural com construção de fossas sépticas nas propriedades que necessitam de tratamento do esgoto.

Davi de Senna engenheiro florestal e responsável pelo manejo do CTA, na agrofloresta em Viçosa – MG. Foto: Fátima Tatiana

O exemplo do CTA mostra que o incentivo comunitário, o apoio governamental e a assistência técnica fazem muita diferença para o sucesso dos sistemas agroflorestais. Recuperar áreas degradadas com diversidade de plantas e proporcionar o retorno de espécies animais que equilibram o ecossistema são boas alternativas para o futuro do campo, destaca Senna.

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