Por Luisa Serrano e Marcella Reis
Você com certeza já escutou “Vai parcelar em quantas vezes?” Essa frase, presente no cotidiano dos brasileiros, representa muito o comportamento de consumo do país. Segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), 68,7 milhões de consumidores brasileiros possuíam compras parceladas em janeiro de 2025.
Esse hábito de dividir o valor da compra em várias parcelas não é novo. Com o surgimento dos carnês, popularizados pelas Casas Bahia nos anos 1950, o brasileiro pode ter acesso a bens duráveis, fracionando os valores em pequenas prestações mensais. A prática se expandiu com a chegada dos cartões de crédito e com a instabilidade financeira gerada pela inflação dos anos 1980.
Conforme a vice-diretora da Liga Acadêmica Newton Paulo Bueno de Economia e Comportamento (Lanp), da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Bianca Pandeló, a cultura do crédito faz parte da história de instabilidade econômica do País, desde a inflação elevada e a insegurança financeira. Além disso, ressalta Pandeló, “consumir não é apenas adquirir um produto, é pertencer, participar socialmente”, o que faz com que o brasileiro busque um tipo de recompensa imediata, optando pelo parcelamento de suas compras.
O consumo brasileiro
A cultura do consumo parcelado tem começado cada vez mais cedo, como por exemplo, por meio da oferta de cartões de créditos aos jovens. Segundo o Banco Central (BC), o número de jovens com acesso ao crédito dobrou de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024.

Esse é o caso de Marcelly Oliveira, que teve seu primeiro cartão de crédito aos 21 anos de idade e diz se arrepender um pouco: “Foi top 10 entre as piores experiências, porque depois que a gente parcela uma vez, quer fazer isso sempre”. No entanto, ela disse que não costuma parcelar com frequência e procura se organizar para dividir apenas as compras maiores, como seu novo celular.
O professor de Contabilidade Financeira da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Antônio Brunozi, afirma que esse método de pagamento é uma forma de o brasileiro poder satisfazer o seu desejo de compras: “Um salário mínimo hoje, com taxas de juros e inflação altos, não consegue nem sustentar o básico. Então, a solução é usar o parcelamento para comprar comida ou para qualquer outro tipo de necessidade básica”.
Esse comportamento também é explicado pelo mecanismo da “dor do pagamento”: quando se divide o valor da compra em várias parcelas, o consumidor sente que está gastando menos. “Pagando no dinheiro, as áreas de alerta ou dor do cérebro são mais ativadas que pagando parcelado. Então a gente não tem essa atenção ao valor final do parcelamento”, explica Bianca Pandeló.
EVOLUÇÃO DO PARCELADO
Desde o carnê, muita coisa mudou. Novas dinâmicas de pagamento surgiram e estimularam ainda mais o parcelamento. Um exemplo é o “parcelamento sem juros”, que como explica Bianca Pandeló, de “sem juros” não tem nada: “Mesmo quando a taxa de juros não está explícita, muitas vezes está embutida no custo total. Tanto é que para muitas compras online, o parcelamento é sem juros, mas pagando à vista ou no Pix tem 10% de desconto”. Hoje, esse é o principal método de pagamento com o uso dos cartões de crédito, representando 41% do volume transacionado, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviços (Abecs).
Outro grande facilitador das compras parceladas é o Pix Crédito. Lançado em 2020, a novidade se popularizou tanto quanto sua versão “debitada”. De acordo com CNDL/SPC Brasil, o segundo tipo de crédito mais utilizado em 2024 foi o Pix parcelado. Marcely Oliveira assume o uso: “Depois que eu experimentei o Pix Crédito, acho que, todo mês, eu sou merecedora de um”. Para Pandeló, o Pix Crédito une duas características poderosas psicologicamente, que são o pagamento instantâneo e a praticidade do parcelamento.
Brunozi também chama a atenção para o surgimento de novas empresas no cenário brasileiro, que facilitaram ainda mais o consumo desenfreado: “Shopee, Shein, Mercado Livre… facilitou muito isso. Então, eu vou lá comprando as coisas de 10, 20 reais e vou aumentando o parcelamento, vou aumentando a dívida e no futuro isso vai virar uma bola de neve”.
EDUCAÇÃO FINANCEIRA É A SOLUÇÃO
É preciso ter cuidado ao parcelar as compras em muitas prestações. Segundo o levantamento da CNDL/SPC Brasil, 79% dos entrevistados possuem dívidas de compras parceladas e 33% admitiram ter ficado com o nome sujo devido à falta de pagamento das faturas.
Nesse processo, a educação financeira é uma grande aliada: “A educação financeira engloba também o autoconhecimento, compreensão dos mecanismos psicológicos que estão sendo utilizados contra você e o ambiente em que você consome”, diz Bianca Pandeló.
Além disso, Antônio Brunozi reforça a importância de criar um planejamento financeiro mensal, baseado no seu rendimento e nas suas contas. Trata-se de “um processo de planejamento de margens que você pode ter controlando o seu orçamento”, explica. Segundo o professor, refletir antes de comprar é fundamental: “Respirar e pensar é importante para não ter esse processo de impulsividade quando comprar”.
