Cinema nacional cresce com produções sobre a ditadura 

Arte e Cultura

Tayssa Lopes
Gabrielle Andrade

4 – 6 minutos

O público de filmes brasileiros saltou de 1,4% em 2023 para 11,2% em 2025, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). O crescimento acompanha o desempenho de produções recentes, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, que abordam a ditadura militar, período marcado por repressão política entre 1964 e 1985. O avanço do cinema nacional também aparece no conjunto do mercado brasileiro. Em 2024, a participação dos filmes brasileiros chegou a 10,1% do público total nas salas de cinema do país. 

Logo no lançamento, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, levou cerca de 360 mil pessoas aos cinemas e arrecadou R$ 8,63 milhões no primeiro fim de semana de exibição. Já O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, registrou 274 mil espectadores e R$ 6,66 milhões no mesmo período. Além do sucesso inicial, Ainda Estou Aqui acumulou mais de cinco milhões de espectadores no Brasil e ganhou destaque internacional, com prêmios em festivais e indicação ao Oscar. 

O fenômeno do cinema brasileiro também deve ser analisado para além dos números, conforme o pesquisador e professor de Comunicação da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), Bruno Leites. Segundo ele, o interesse por filmes sobre a ditadura está ligado tanto à qualidade das produções quanto ao contexto atual.

“Esse fenômeno se inclui numa constatação que é absolutamente importante: precisamos cuidar dos nossos arquivos, desses signos que foram construídos e passados de geração em geração, não apenas da ditadura militar”, explica. 

Conforme o professor, o reconhecimento internacional também contribui para atrair espectadores no país, já que, em um cenário de excesso de conteúdo, festivais e premiações passam a funcionar como filtros que orientam o público e ampliam a visibilidade de determinados filmes. 

Memória e circulação

Historicamente, o impacto vai além do entretenimento. Conforme a professora de História da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Patrícia Lopes, produções sobre a ditadura ajudam a construir memória coletiva. O tema, segundo ela, ainda mobiliza a sociedade por envolver tensões sociais, debates políticos e até questões institucionais e de identidade nacional, especialmente no que diz respeito à construção de uma sociedade democrática. “O cinema também cumpre esse papel: de se inserir nesse espaço, de provocar, de trazer a reflexão e de disputar a memória”, afirma.

Matheus Motta, coordenador do Cineclube Carcará

A circulação dessas produções também ganha força fora do circuito comercial, como no Cineclube Carcará, projeto da Universidade Federal de Viçosa (UFV) que promove exibições gratuitas seguidas de debate, ampliando o acesso do público a filmes que nem sempre permanecem em cartaz nas salas tradicionais. Para um dos coordenadores do projeto, Matheus Motta, a iniciativa busca justamente democratizar esse contato e estimular a reflexão. “A gente sempre está tentando trazer esse debate que é bastante político, é importante e faz parte da nossa história”.

Alta nas bilheterias 

As reações do público, indicam uma recepção positiva às produções. Para a estudante de Pedagogia da UFV, Larissa Passos, o contato com esse tipo de filme foi um ponto de virada no interesse pelo cinema nacional. “Eu vi o quanto as produções brasileiras são ricas e a gente às vezes não valoriza. Depois dessa produção, vi o quanto é tocante a produção brasileira, o quanto também a gente se identifica.”

Em meio a esse cenário de crescimento, Ainda Estou Aqui se destacou ao figurar entre os dez filmes mais vistos do ano no Brasil, um espaço que o cinema brasileiro não ocupava há anos com tanta força. Ainda assim, as maiores bilheterias seguem concentradas em produções estrangeiras, como Divertida Mente ” (22,2 milhões de espectadores), Moana 2 (seis milhões) e Meu Malvado Favorito 4 (6,6 milhões). 

Histórias que ecoam 

Se por um lado os números mostram crescimento, por outro são as histórias que ajudam a explicar esse movimento. Ao revisitar um período marcado por censura, violência e silenciamentos, o cinema brasileiro encontra no presente um público disposto a olhar para trás. Não apenas por curiosidade, mas por identificação, inquietação e, muitas vezes, pela necessidade de entender como esse passado ainda ecoa hoje. 

Nesse contexto, mais do que ocupar espaço nas telas, essas produções ocupam um lugar no debate público. Entre salas de cinema e cineclubes, como o Carcará, o que se vê é um público que não apenas consome, mas também discute, questiona e ressignifica essas narrativas, sinal de que o interesse vai além de uma tendência e se aproxima de um processo contínuo de construção de memória.

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