Arthur Guedes
Luiz Fernando Reis
Antes mesmo de a bola rolar, a Copa do Mundo já dava sinais no chão das cidades brasileiras. Em muitas ruas, o cinza do asfalto era tomado pelo verde e amarelo, em uma tradição que transformava o espaço urbano em ponto de encontro e pertencimento. Foi com esse espírito que moradores, amigos e apoiadores se reuniram, no início de junho, para realizar a pintura “Floriano Peixoto na Copa”, em Viçosa (MG). A ação retomou a prática comum em outros Mundiais de ocupar a rua coletivamente, desenhar bandeiras, bolas e frases de apoio à Seleção. Mais do que decorar o bairro, o gesto recolocou a rua como espaço de convivência.

Para a moradora de Viçosa e participante da mobilização, Larissa Fernandez, a pintura ajuda a recuperar uma dimensão afetiva da vida em comunidade. Para ela, iniciativas como essa aproximam pessoas que dividem o mesmo endereço, mas quase não convivem. A Copa funciona como pretexto para que vizinhos conversem e crianças participem.

Foto: Bruno Gabriel
A percepção dialoga com a visão do artista urbano, tatuador e grafiteiro Vinicius da Silva, conhecido como Psyko. Para ele, a arte na rua passa pela apropriação do espaço urbano e a pintura de rua na Copa, mais do que enfeitar a cidade, mas marca presença do morador onde ele vive.

Nos últimos anos, porém, esse ritual parece ter perdido força. O que antes envolvia mutirões e disputas entre bairros, hoje aparece de forma mais pontual. Esse enfraquecimento passa pela mudança na relação das pessoas com a rua, pelo avanço das telas e pela fragmentação dos vínculos.
Em Viçosa, a pintura mostrou o que se perde quando essa tradição desaparece. Para o morador de Viçosa e participante da ação, Jumar Silva, a importância está na possibilidade de aproximar pessoas que dividem o mesmo espaço, mas nem sempre convivem.

Foto: Bruno Gabriel
A ação indica que recuperar essa tradição não significa repetir o passado exatamente como ele era. Em um momento em que a convivência nas ruas se tornou menos frequente, pintar o asfalto ganha outro sentido: não apenas torcer pela Seleção, mas reafirmar a presença da comunidade no espaço público. Ao final, o chão colorido permaneceu como registro coletivo e sinal de que a Copa, antes de começar no estádio, começa nas ruas.
